Cara ou coroa
Luis Fernando Verissimo
- Acorda! - Mmzm. Mxmvz. Zbsmnz... - Acorda, vamos. - Deixa eu dormir, pô. - Como, dormir? O Brasil do jeito que está e você ai, dormindo? - Me deixa. - É por causa de gente como você que as coisas estão como estão. Gente que deixa pra lá, que não se interessa, que... Olha aí, dormiu de novo. Acorda! - Está bom. Já acordei. - É por causa de gente como você que... - Não. É por causa de gente como você. - Eu?! como, eu? Eu estou atento, engajado, ocupado, preocupado. Em uma palavra, acordado. Como eu posso ser o culpado? - Estava tudo ótimo. A economia do Brasil, uma maravilha. O governo Lula funcionando. As pessoas animadas. O país progredindo. Todos em paz. E você estragou tudo. - Mas o que foi que eu fiz? - Me acordou!
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- Vamos escolher os lados. Cara ou coroa? - Cara. - Coroa. Moedinha no ar. - Deu cara. - Eu escolho o lado de... - Espera aí. Quem disse “cara” fui eu. - Fui eu. Você disse “coroa”. - Não, eu disse “cara”. Você disse “coroa”. - Seu juiz, quem disse “cara” e quem disse “coroa”? - Não me lembro. - Vamos jogar a moedinha outra vez. - Certo. Moedinha no ar. Cai no chão, e ninguém a encontra. - O senhor não tem outra moedinha? - Tenho uma nota de cinco. Alguém tem troco? Ninguém tem troco. - Eu tenho uma medalhinha. O juiz examina a medalhinha. - Bom, de um lado tem um São Tomé, do outro tem o retrato de uma moça. - É a minha noiva, a Lindonéia. - Eu quero Lindonéia. - Epa. A Lindonéia é minha. - Já escolhi a Lindonéia. - Não pode. - O São Tomé eu não quero. - Assim não vai dar. Vamos decidir no par-ou-ímpar. - Tá. Par. - Ímpar. - Três. Ganhei. - Desde quando três é par? Só se for na sua zona. - Eu disse “ímpar”. - Eu disse “ímpar”. Você disse “par”. - Chega. Vamos decidir no pauzinho. Cada um pega três talos de grama. - Canto eu. Cinco. - Três! - Um! Os três mostram a mão. - Ganhei! - Mas o senhor é o juiz. - É mesmo... Quer saber de uma coisa? Vamos decidir isto no futebol. - Na bola. - Vamlá! - Mas como é que se escolhe os lados para decidir quem escolhe os lados? - Esquece isso. Eu decido, pronto. Você escolhe o lado, você dá a saída. - Iiiih... Eu sabia que cedo ou tarde alguém ia propor uma solução de força e isto ia acabar em ditadura. - Está bem, está bem. Eu vou segurar a medalhinha em uma das mãos. Quem acertar a mão que tem a medalhinha, escolhe o ... Opa. A medalhinha também caiu no chão. Os três a procuram. - Achei a moeda. - Ótimo. Lá vai a moeda pro ar. - Par! - Ímpar! A moeda cai na mão do juiz, que anuncia: - Lindonéia! - É demais. O juiz anuncia: - Suspenso o jogo.
Domingo, 21 de agosto de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.